terça-feira, 9 de junho de 2015

Desconhecido

                                                           Desconhecido




  Já teve a sensação de que algumas coisas só acontecem com você, e que existem alguns sentimentos, os quais você sequer sabe explicar, e que acha que só você possui? E aí, certo dia você descobre que não é só a sua mãe que coloca feijão no pote vazio de sorvete, e que aquele aperto no coração não pertence somente a você. Bate um certo alívio, uma sensação de que você não está preso numa ilha deserta com aquele sentimento. Nem com o feijão. Bom, essa introdução é para que você compreenda melhor sobre esse sentimento sobre o qual eu tentarei falar, um sentimento sem nome, e que espero não ser a única a possuí-lo. Provavelmente não chegarei a uma conclusão, muito menos a uma solução para o aperto que ele causa. Mas organizar um sentimento em palavras escritas nos ajuda a "enxergá-lo" melhor. É como se o colocássemos numa vitrine, onde podemos visualizá-lo por inteiro. Ver de outro ângulo, de fora. 
  Eu tenho o costume de vez ou outra parar e pensar em tudo. No que há de bom e ruim naquele momento da minha vida. Fujo de todo barulho, me sento confortavelmente, ligeiramente inclinada pra cima (deitar no chão também serve). Olho para o céu. Bem azulzinho, uma ou outra nuvem com um formato engraçado, bem branquinha, perdida. Pássaros livres voando de uma árvore para outra.
Olhar pro céu inspira. Tira de dentro da nossa mente tudo de bom que ela possui. Aquela calma que o azul do céu transmite clareia as ideias. E elas fluem. É um momento excelente para criação, mas também para a reflexão.
  Mas aí, dentre tantos bons e maus sentimentos que passam por nossa cabeça nesse momento, ele aparece. Aquele sentimento desconhecido. Sequer sabemos como chamá-lo. Ele começa com uma dorzinha na boca do estômago, passa pelo coração, comprimindo-o, vai até a cabeça, e inunda nossas ideias. Ele está longe de ser bom, mas, ao mesmo tempo, ele nos faz querer agir.
  Esse sentimento surge a partir das escolhas que fizemos na vida até então. O objetivo dele é nos provar que, baseado no que pretendíamos ser lá atrás, nós falhamos. Esse doloroso desconhecido nos questiona, lá no nosso íntimo: E se você tivesse tomado uma decisão diferente naquele momento? Por que você não se esforçou mais naquela época? Porque você deixou aquela oportunidade escapar?
  Essas questões podem se aplicar a qualquer aspecto da nossa vida que pareça não ter saído como o planejado. E dói, viu?! Por que, por mais correta que tenha sido certa decisão que tenhamos tomado naquele momento, lá no fundo pensamos em como e onde estaríamos se não tivéssemos feito a tal tão difícil escolha. Por que fazer o certo está longe de ser o mais fácil. E aquela decisãozinha, às vezes até um punhado de decisões que precisamos tomar naquele mesmo setor, volta e meia vem nos assombrar. Mas não nos arrependemos, porque nos lembramos que foi de fato o mais certo a se fazer. Mas mesmo assim, teríamos sido mais felizes?
  Eu sei que é um tema um pouco complicado de se compreender. Mas, se você ao ler esse texto se lembrou de algo, ou alguém, que algum dia te deixou em dúvida, e que hoje te atormenta (dentro da sua cabeça), então vai entender sobre o que estou falando aqui. E se essa pessoa, ou oportunidade, ou ocasião, parece ser mais feliz (ou fazer alguém mais feliz) que você, a nossa tortura particular dobra de intensidade. Porque a sensação de que perdemos algo parece ainda mais real. Aí, como quem não quer nada, perguntamos, assim bem sutilmente, a um amigo nosso de plena confiança, familiarizado com a questão, aquela boa e velha pergunta que você provavelmente já fez: Você acha que eu devia ter feito tal coisa? E, se o seu amigo for um bom amigo mesmo, ele vai te lembrar que sim, você tomou a decisão certa, por mais difícil que tenha sido. E o nosso coração volta a ficar em paz.
  Amigo, acredite, eu sei.
  Não vou, assim como normalmente eu faço, te dar um conselho ou uma dica de como suavizar esse sentimento tão ruim de carregar. Mas mais porque eu não sei mesmo. No máximo vou dizer como eu lido com ele, que está longe de ser a melhor maneira de se lidar com qualquer coisa.
  Eu fujo. Quando vejo que ele está prestes a aparecer, já encerro o meu momento de “olhar pro céu e pensar na vida”, e tento não deixar ele se instalar na minha cabeça. Procuro fazer com que a minha mente esteja sempre em movimento, seja injetando altas doses de ficção nela, seja por xeretar a vida. Dessa forma, não sobra espaço para o que nos chateia.
  Porque esse não é o melhor modo de lidar com esse sentimento, já que parece ter certa medida de eficácia? Porque sentimento a gente enfrenta. Para superar, tem que encarar, brigar com o nosso próprio coração. Tem que tentar entender e resolver com nós mesmos. Fugir só vai mascarar a dor. E volta e meia ela vai voltar.
  Bom, como eu disse antes, não sei a maneira certa de lidar com esse sentimento desconhecido. Mas, quem é que consegue se meter nessa eterna guerra entre razão e emoção, né?! Quem é que consegue resolver cada pequeno conflito interno que aparece?
Esses somos nós, seres humanos aflitos e confusos, tentando a cada dia entender mais dessa coisa louca que é viver, pensar, sentir.



*MaRi Rezk*



segunda-feira, 23 de março de 2015

E a gente aprende....

                                                 E a gente aprende....





  E para isso servem boa parte das coisas que acontecem com a gente. Cada pessoa que a gente conhece. Cada conversa. Cada tropeção. Tudo o que acontece ensina uma lição. Cada pontada no topo do estômago, cada ferida, cada sorriso ou lágrima, nos fazem lembrar onde erramos e onde acertamos.
  A regra geral é: aquilo que aprendemos da pior forma possível, é o que mais nos marca. Geralmente aquilo que mais machuca, é o que nos ensina com mais facilidade as mais valiosas lições. Quanto maior a queda, com mais medo de altura ficamos, e assim por diante.
  É claro que a maioria de nós tem uma característica extremamente irritante de apanhar da vida várias e várias vezes, e achar que foi uma simples coincidência, e que não vai acontecer de novo. Mas eis a lição que eu aprendi por ter esse tipo de comportamento: se você não aprende nada depois de quebrar a cara várias vezes, no mesmo tipo de situação, então prepare-se. Porque a vida vai se ver obrigada a esfregar a sua cara no asfalto até que você aprenda a sua lição. E, desse jeito, talvez você finalmente aprenda. Mas vai doer bastante, e demorar pra cicatrizar. E a lição vai ficar tão marcada, que vai ser difícil não guardá-la.
  E depois dessa grande chinelada na cara que a vida nos dá, existem, claro, os efeitos colaterais. Às vezes ficamos tão inconformados, que é difícil confiar até na própria mãe da gente (é só um exemplo, eu confio na minha mãe sim! ). Ficamos com raiva de tudo, principalmente de nós mesmos. E sofremos a cada lembrança, sempre que a ferida lateja. Mas passa. O tempo ajuda a curar, ou pelo menos ameniza a dor. E, a cada dia, mais apagada fica  a marca. E a gente, a cada dia, aprende mais com aquilo, cresce, amadurece, e, o mais importante, muda. Entendemos que o que nos faz mal, aquilo que bagunça nossas ideias, aquela situação que nos adoece, não tem que fazer mais parte das nossas vidas.
  E assim a gente aprende. Aprende que não se pode confiar 100% nem na gente mesmo (muito menos nos nossos julgamentos). Aprendemos o que é (e o que não é) um amigo de verdade. Aprendemos o valor que as distâncias podem ter nos relacionamentos (e que a distância emocional é muito mais longa do que qualquer distância física).
   Aprendemos que ninguém tem o direito de decidir de quem você pode ou não gostar, mas que as pessoas que realmente se importam com a gente podem enxergar melhor a situação em que estamos, e seus conselhos (e até broncas) podem ser muito valiosos.
   Aprendemos que nada pode envenenar mais um relacionamento (seja ele qual for)do que uma mentira, mesmo a menor delas. Aprendemos que, quem nos ama, nos ama até quando a gente não está olhando (seja qual for o tipo de amor). Aprendemos que a felicidade mora dentro da gente, não importa o que aconteça do lado de fora.
   Aprendemos que oportunidades aparecem sem avisar, e, se não as abraçarmos com toda a força, elas escapam. Com o tempo, aprendemos a lidar com as tristezas, e fazer o possível para substituí-las por alegrias. Aprendemos a relevar para não enlouquecer.
  Aprendemos que, muitas vezes, precisamos deixar algo de lado, para abrir espaço para coisas melhores que virão. Aprendemos que nem sempre aquilo que fazemos pra alguém, vai ser retribuído. Por isso, qualquer coisa que você pretenda fazer, faça sem esperar nada em troca (Porque muito provavelmente você não vai receber mesmo).
  Aprendemos que muitas pessoas que passam pela sua vida tentam fazer com que você se passe por louco. Não acredite nelas. Aprendemos que as injustiças que acontecem conosco, servem pra nos deixar mais fortes e sábios, e que ficar revoltado não vai melhorar a sua situação. Lidamos com isso de forma calma e inteligente.
  Aprendemos que pessoas que mentem e enganam outros normalmente se enrolam em suas próprias histórias. Tentamos não nos preocupar muito com isso (Apesar de ser a coisa mais difícil do mundo).
  Aprendemos que manter a paz é o mais importante, mesmo que seja contra a nossa vontade (bater na cara da pessoa não ajuda em nada, acredite), e é sinal de madureza. Aprendemos que escutar conselhos nos ajuda a pensar com mais clareza, e a tomar decisões mais acertadas. E o mais importante, aprendemos a não deixar que ninguém roube de nós a nossa alegria. É uma coisa nossa, de dentro de nós, e ninguém pode interferir nela.
  Algumas vezes pode ser que estejamos perto de ter uma recaída. E eis o que eu aprendi sobre recaídas: você terá muitas. Mas tudo bem. Insistir no erro faz parte de ser um humano imperfeito. Mas, um dia adquirimos experiência o bastante para aperfeiçoar a nossa capacidade de aprender com os erros (os nossos e os dos outros). Basta praticarmos o exercício da nossa capacidade de raciocínio, e tirarmos tudo de bom de uma situação, no caso das situações ruins, as lições. E aplicarmos o que aprendermos para o nosso bem, e para o bem de outros. Simples assim (até parece).
Ah! Quase esqueci de uma das mais valiosas lições que já aprendi da vida: chocolate não cura toda dor do coração. Mas alivia bem. Recomendo.


*MaRi Rezk*


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Que a vida leve....

                                                    Que a vida leve....





  Conflitos sempre me deixaram doente. Sempre gostei de paz. De ter um punhado de amigos, de rir de tudo, e de relevar as pequenas bobices de quem estivesse ao redor. Me faz me sentir grande, sábia.
  O que pode ser mais sábio do que relevar e superar? Ou nem ligar?
   Como é leve não ter pelo que adoecer!
  Sempre gostei, mas nem sempre consegui.
  Mas então, quando algo resolve dar errado, ele dá uma festa de aborrecimentos, que enchem a nossa garganta de nós. Um problema nunca se contenta em ser um. Sempre vem acompanhado, e tem como hobby causar uma turbulência, que vai da cabeça ao coração.
  E o desejo de transformar esses apertos em soluções fica assim, flutuando ao redor da gente, sem nunca se concretizar (porque não nos cabe fazê-lo). Nos faz sentir falta de um dia atrás, quando tudo era menor e menos complicado.
  Pessoas tem o dom de dobrar o tamanho dos problemas.
  Existem certas ocasiões em que uma história se quebra. Quase sempre, quando algo se quebra, alguns pedacinhos se perdem com o impacto. E nunca mais os encontramos. Aquela peça nunca mais será completa. Ignorar esse fato não é consertar o problema por completo. É preciso lembrar-se que a peça remendada talvez precise ser usada de outra forma a partir de agora.
  Pisar nos cacos pode ser ainda mais doloroso. Fingir que aquilo que se quebrou não era importante pode ser uma solução momentânea. Mas um dia vai voltar e nos quebrar também.
  Porém, quando a ocasião obriga a gente a ser adulta, ainda que ser adulto dê a sensação de ser infinitamente inferior a ser criança, percebemos que ter certa medida de experiência, do tipo que nos leva a agir com maturidade, tem seu sabor.
  Por fim, é preciso saber reconhecer quando a única opção for deixar que a vida leve aquilo que não nos cabe.
  Que a vida leve o que for pesado, o que desequilibra, o que sufoca. Que permaneça o que faça feliz, o que seja simples, o que carrega a gente pra cima, e nos empurra pra frente.
  Que a vida leve o que eu não preciso, e que insisto em ter por puro capricho. Que as decepções voem para longe, na primeira brisa que passar.
  Que eu nunca me esqueça do mais importante, e deixe o de menos  para trás. E que fique só o que for leve.


*MaRi Rezk*


sábado, 27 de dezembro de 2014

Tudo Novo

                                                              Tudo Novo




  Um ano novo sempre vem recheado de promessas de mudanças de todo tipo. Seja uma dieta para começar assim que as férias acabarem (e que desaparecerá misteriosamente todo domingo), ou um “pegar firme na academia” – partes de um mesmo projeto envolvendo sempre o próximo verão. Fazer mais amigos, gastar menos com bobagens. Finalmente investir naquela tão sonhada viagem, ou naquele cursinho que esteve sempre nos planos, mas que nunca se concretizava.
  A verdade é que estamos todos acostumados a achar que novos hábitos só podem começar em começos. Começo de ano, de mês, de semana, ou até de dia. Como se fosse inconcebível começar a se alimentar bem na quinta-feira, ou um crime começar a fazer exercícios no meio do mês de março.
  Mas existe um segredo universal, desconhecido pela grande maioria das pessoas, principalmente das especialistas em promessas. É o seguinte: quem quer mesmo mudar, começa agora!
  É isso mesmo. Agora. Hoje. Nesse instante. Ou o quanto antes, dependendo do que você pretende.
  Quem quer mudar não promete, faz! E faz assim que a primeira oportunidade aparece.
  Esperar o momento mais adequado pode demorar mais tempo do que você imagina. E a cada dia que passa, aquela empolgação vai diminuindo, pouco a pouco, até se transformar na promessa do ano seguinte.
  Que tal, com o devido planejamento que cada projeto requer, encarar o seu desejo de frente? Transformar aquela sua promessa em  realidade, e se jogar nela?
  Que tal começar aquela dieta na sua próxima refeição (e não enfiar a perna inteira na jaca no próximo domingo)? Ou começar aquela tão adiada caminhada, amanhã mesmo?
  Comece a dar o seu melhor hoje. E depois de começar, com determinação, a vontade de realizar seu sonho, ou de concretizar seus tão planejados projetos, só vai aumentar a cada dia.
  Falar é muito mais fácil do que fazer, não é segredo pra ninguém. Mas dar o primeiro passo não é nenhum bicho de sete cabeças. Se mantiver seus planos muito longe das suas mãos, sem conseguir torná-los palpáveis, mais fora da realidade elas vão parecer estar, e mais difícil será de deixar de falar e começar a fazer.
   Não desanime se suas primeiras tentativas não derem certo. Refaça seus planos, se necessário. Mexa-se. E planeje mais. Não deixe de tentar, e tentar de novo. A vida vai te oferecer inúmeras oportunidades de se realizar com o que mais gosta. Mas o primeiro passo é você quem dá. E aí, vamos começar?


                                                                                                                                                                 

*MaRi Rezk*


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Medo

                                                              

                                                                     Medo






   Tem gente que tem medo de lugares fechados e apertados. Sentem-se sufocadas, encurraladas. Não eu. Tenho medo de espaços abertos demais. Me assusta o excesso de liberdade, não saber onde começa e onde termina, perder-me no meio de uma decisão grande demais. Ter mais opções do que as que cabem nas minhas duas mãos juntas me adoece.
   O muito me assusta. Sentir o peso de muitas escolhas a fazer. Ter muitos assuntos piscando na cabeça, pedindo para serem pensados. Ter muito a resolver, sem tempo para certezas. Um filme muito longo.
   Tenho medo de nunca conseguir uma certeza. De sempre balançar. De sempre pensar em “como seria se...”.
   Me apavora tudo que tenha a remota possibilidade de explodir: coisas, lugares ou pessoas.
   Tenho medo de nunca me perder, de sempre estar em um lugar seguro demais, de não aprender uma lição depois de tropeçar. Tenho medo da monotonia, da certeza, da tranquilidade que nunca dá um tempo.
   Tenho medo de, ou estar sempre certa, ou sempre errada. Quero equilíbrio, provar o sabor de cada um. Medo de que o próprio medo supere minhas vontades, de pensar demais e fazer de menos. Temo não ter forças para arriscar, quando sinto  que é o que mais quero. Medo de perder antes de ganhar. Ou nunca chegar a ter.
   O escuro me assusta com facilidade. Principalmente aquele escuro que fica dentro da nossa cabeça. Gosto de enxergar onde estou pisando, de saber pra onde estou indo, se estou no caminho que pretendia tomar, ou se já estou perto de onde queria estar.
    Temo pessoas influentes demais, principalmente por estar longe de ser uma delas. Tenho medo de ser arrastada por correntezas de pensamentos vazios. Tenho medo de soltar a mão da razão e andar segurando a emoção com as duas mãos. Quero andar de mãos dadas com ambas, sem deixar nenhuma para trás.
    Tenho medo apenas dos erros que eu não consiga consertar. E os arrependimentos são, para mim, os medos mais difíceis com que se pode conviver.



                                                                            *MaRi Rezk*


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Todos Os Agoras

                                                    Todos Os Agoras




  Acho é que o tempo é que gasta a gente. É cruel com alguns, e extremamente generoso com outros. Ensina a valorizar apenas o que já não mais se pode ter. Quanto mais se quer fugir, mais lento ele se faz. Quanto mais se precisa dele, mais ele corre.
  Volta e meia vem nos cutucar. Basta uma imagem, uma palavra, um aroma, e o tempo que já passou cai todo em cima da nossa cabeça, com o peso de tantos anos, em forma de lembrança. E se forem lembranças boas, faz pior. Ele transborda, escorre pelos olhos, e arranca um “que saudade...” lá do fundo do coração até a boca.
  O passado costuma nos marcar antes de nos deixar seguir em frente. Faz nos apegarmos a momentos que nunca mais teremos, pessoas que jamais estarão por perto outra vez, instantes de felicidade que não se repetirão.
  O tempo, conforme passa, vai partindo nosso coração, e deixando as migalhas para trás. Fez comigo sem que eu deixasse, e não devolveu nenhum pedacinho. De vez em quando o passado aparece sem ser convidado, se instala, toma lugar de preocupações de amanhã, faz doer o coração até explodir, e daí desaparece por um tempo, até que outra imagem, outra palavra, outro aroma, o faça aparecer de novo. A pior parte é quando ele volta em outra forma, pra que você veja que não pode refazê-lo, não do jeito que era antes. Aquelas boas lembranças que matam a gente quando voltam à superfície!
  O tempo nem sempre nos maltrata. Ele nos dá de presente o agora. O exato momento para se escrever cada traço de história que tivermos para contar. O agora é quando a vida acontece, o intervalo entre os planos e as memórias. É por ele que esperamos, e é dele que sentimos falta.
  Mas não podemos desperdiçá-lo.  Num instante ele vira passado. Pode acontecer de apenas nos encontrarmos nele, sem nos lembrar do caminho que foi percorrido até o momento. Quando isso acontece, fica difícil de nos mover, de agir. Não deixa de ser presente, mas um presente que fica estacionado, entre um passado no qual desperdiçamos horas pensando em qual foi o momento em que algo diferente deveria ter acontecido, e um futuro que nos assusta dia a dia, que sufoca as esperanças e só faz dar medo.
  O presente foi feito pra construir tudo o que um dia seremos, como o que um dia deixamos de ser. Nele foram feitas cada escolha, boas ou ruins, e nele faremos ainda muito mais. Vivemos esperando os futuros “agoras”, aqueles que um dia virarão uma boa lembrança, e até aqueles que se tornarão arrependimento, mas que irão nos ensinar e nos moldar.
  O futuro costuma mais prometer do que cumprir. Ele dá esperança e faz sonhar, e, simultaneamente, nos aterroriza e confunde. E não se pode evitar o confronto, um dia ele vai chegar em forma de agora, cumprindo promessas, decepcionando, e ,principalmente, surpreendendo. Você pode  estar vivendo o seu futuro agora. E o seu agora pode ser só passado quando você acordar amanhã. O mundo não pára de girar para o acompanharmos. Nós é que temos que correr atrás dele. E sempre tomando cuidado pra não tropeçar no meio do caminho. Você pode se levantar, mas seu joelho ainda vai estar ralado. Você pode consertar cada erro cometido, mas sempre existirão as consequências. Concentre-se no seu agora. Em cada agora.



*MaRi Rezk*


quinta-feira, 27 de março de 2014

Arrependimentos

                                                           Arrependimentos




  Quando viajo longas distâncias de carro, olhar a paisagem passando rápido na estrada é o que melhor me distrai. Ainda que a paisagem não seja muito bonita, gosto da sensação de ver aquela imagem passando depressa, como se, ao invés de eu estar correndo pra frente, o mundo estivesse correndo pra trás. Sinto uma inexplicável sensação de paz. É um excelente momento para refletir nas experiências mais marcantes que vivemos, ou nos maiores planos para o futuro. É como se pudesse entrar numa máquina do tempo, voltando ao passado para consertar os erros, e conhecendo o futuro o suficiente para fazer as melhores escolhas.
  Para mim, a ideia de voltar no tempo é mais tentadora. Não apenas pelas grandes más escolhas que mereceriam ser refeitas, mas também pelos pequenos erros que influenciaram grandes acontecimentos, e que martelam na nossa cabeça de vez em quando. Além disso, consertar um erro é infinitamente mais difícil do que não cometê-lo.
  Arrependimentos têm duas faces. Uma delas, de ter feito algo de que não se orgulha. Outra, de não ter feito algo que poderia ter valido a pena. Quem diz não sentir por qualquer uma dessas, não está sendo sincero. Ainda que seja algo bobo, aparentemente sem importância, mas que, depois de chegarmos no futuro, vimos que poderia ter feito a diferença.
  Uma palavra lançada como uma flecha, no calor do momento. Uma mensagem, do tipo que causa arrependimento instantâneo. Ou ainda uma mensagem que não foi enviada no meio da noite, por medo de incomodar. Um abraço não dado, um tapa mal dado, umas verdades não ditas. Uma briga desnecessária. Uma explosão de gritos que poderia ter sido evitada. Uma amizade desfeita. Um laço cortado ao meio. Uma atenção que não foi dada no momento certo, ou uma dada à pessoa errada. Tempo desperdiçado, quando poderia ter sido dedicado ao que é mais importante. São coisas das quais nos lembramos por um bom tempo, e que poderiam nos colocar em outras direções, tornando a nossa vida diferente de como a conhecemos agora.
   E como não querer desesperadamente voltar no tempo para consertar erros bobos, como aqueles irreparáveis erros cometidos no cabelo ou sobrancelha, que nos fazem chorar por dias, e querer andar por aí com um saco de pão na cabeça?! Aquele chocolate tirado do esconderijo secreto, e degustado antes de dormir, e que não sai do seu corpo nunca mais. Aquele terceiro e desnecessário pedaço de pizza. Aquele risco de delineador que já estava bom antes de estragarmos tentando inovar. A estúpida ideia de querer dançar em público, quando você sabe que não é capaz. Uma risada maldosa na hora errada, impossível de conter. Ou quando perdemos uma ótima oportunidade de ficar calados.
  Sempre haverão erros para se lamentar. Talvez não necessariamente um erro, mas podemos sentir um forte desejo de ter feito mais, de ter sido melhores no que quer que não tenhamos sido.  De ter demorado tanto pra descobrir a forma certa de ser/fazer/pensar, talvez não necessariamente a forma certa pro mundo, mas a forma certa pra nós.
  Mas lamentar é cansativo, e improdutivo. Nossa vida passa tão rápido, e quando nos damos conta, tudo aconteceu num picar de olhos. Gastar tempo pensando e pensando em como poderia ter sido, ao invés de investir no que ainda pode ser, é um grande desperdício de vida. Lembrar das bobagens que fizemos pode ser doloroso, ou às vezes até mesmo engraçado. Algumas coisas poderemos consertar, sim, mas nunca poderemos voltar no tempo, apagar a más lembranças. Mas podemos aprender com elas, superar, seguir em frente, fazer melhor. E de vez em quando podemos nos deixar atormentar um pouquinho por elas, não deixando que suas dolorosas lições sejam esquecidas. Faz parte de se viver.




*MaRi Rezk*