terça-feira, 26 de maio de 2026

Do que você lembra?

                    Do que você lembra?


  Eu amo guardar. Guardo lembrancinhas, desenhos de crianças, fotos (muitas muitas mesmo). Mas talvez aquilo que eu mais guarde são memórias.

  Algumas eu escolho, outras não. Às vezes algumas das que eu guardei pulam atrás dos meus olhos, umas boas, outras ruins. Sempre que possível eu empurro as ruins pro fundo da minha cabeça, para enterrá-las tanto quanto possível. Quanto às boas, procuro alimentá-las, para que sempre voltem.

  O processo de armazenamento de memórias é atualizado constantemente, com o passar dos anos. Com alguns upgrades, posso dizer. Talvez a maturidade tenha a ver com o aprimoramento do processo. Ou talvez seja o desespero de se livrar do máximo de memórias ruins possível. Quem sabe?

  O ponto é : é possível selecioná-las melhor. Tem tudo a ver com os sentimentos. Se, no momento em que eu estou vivendo, eu alimentar um sentimento ruim, ele domina aquela memória. Oposto a isso, se no momento do acontecimento, no momento em que uma memória está sendo criada, eu me lembrar de demonstrar boas qualidades, de ver o lado positivo da situação, e de tentar aproveitar ao máximo o lado bom, estarei criando memórias felizes.

  É claro, não é sempre que a gente consegue. Existem situações que despertam um turbilhão de emoções. Mas, como tudo no mundo, a prática ajuda muito.

  Não é fácil ser racional. Às vezes os sentimentos são teimosos e gostam de aparecer. Mas eles não nos governam. Eles são nossos, e não nós deles. Percebê-los já é metade do caminho para dominá-los. Vai ser sempre? Não. Mas o pouco que conseguimos já ajuda a praticar.

  E construir e manter memórias felizes é como dar um presente pro seu eu do futuro. A gente não gosta que se lembrem de nós pelo nosso pior. Porque fazer isso com os outros?

  Quando vivemos as mesmas coisas com alguém, podem ser construídos 2 tipos de recortes. Eu guardo os recortes felizes que vivemos, e pode ser que o outro guarde apenas os recortes tristes das mesmas lembranças. Isso não necessariamente me condena, ou absolve o outro. Nem quer dizer necessariamente que um de nós distorceu a história. Talvez (e apenas talvez, cada história tem milhares de nuances) cada um de nós permitiu que um sentimento diferente amarrasse aquela lembrança, e cada um de nós a alimenta diferente. Cada um se sente confortável dentro de um sentimento diferente.

  O cuidado necessário aqui é não deixar que tudo isso afete nossas atitudes de modo definitivo demais. É se lembrar que, acima de tudo, somos seres humanos, que merecem respeito e amor. E, ainda que não mereçamos, precisamos. Para entendê-los, conhecê-los. Respeitar e amar não exclui a justiça, como a justiça não exclui o respeito e o amor.

  Amar é não odiar. E não odiar deixa o coração mais leve. Nosso coração, estando mais leve, devolve o alívio à nossa respiração, ao sono, ao estômago.

  Não é sobre jogar glitter numa montanha de lixo. É sobre, ali, no meio do lixo, encontrar algo útil e bonito, limpá-lo, e levá-lo pra casa. A gente não precisa trazer junto o lixo pra casa. Precisamos deixá-la no lugar ao qual ela pertence - do lado de fora.


*MaRi Rezk*



O Dono da Culpa

                      O Dono da Culpa



  De quem é a culpa?
  Não acredito que seja minha. Ninguém acredita que tenha a culpa, geralmente.
  Porque a gente sempre procura um responsável por tudo que acontece?
  O mais difícil é tentar entender porque a gente tenta achar um responsável pelas decisões de alguém. O poder de decisão é uma das coisas mais pessoais que existem. Posso ter vários traumas na minha vida, mas não posso responsabilizá-los pelo que eu decidir fazer. Eles não me definem, nem decidem por mim. Posso usá-los de formas diferentes, para diferentes fins. Posso escolher abraçá-los e deixá-los tornar-se parte de cada um dos meus dias, e direcionarem meus pensamentos e ações. Assim como posso decidir deixá-los no passado, apenas como lições aprendidas. As duas opções são decisões que eu vou tomar, e não posso responsabilizar ninguém por elas.
  Também não posso escolher alguém para culpar por minhas ações. Não poderia dar a alguém tanto poder sobre mim, nem se quisesse.
  Não é que não possamos ser influenciados por outros. Podemos, e muito. Mas ainda que a influência seja grande, e a pressão forte o suficiente para me fazer sofrer, o poder de decisão ainda é meu.
  Eu ainda sou eu, ainda falo e penso por mim.
  Seria muito fácil culpar a outros pelas minhas escolhas. Culpar meus traumas pela minha forma de lidar com eles mesmos. É como dizer que outra pessoa é que merece as consequências pelas minhas ações.
  Às vezes sofremos as consequências das ações de outros (muitas vezes). Mas não devemos carregar essa culpa. Existem muitas nuances sobre o assunto do poder da influência, mas nenhuma dessas nuances nos leva a ser responsáveis pelas decisões de outros.
  “Olha o que você me fez fazer.”
   “Eu fiz isso porque você me fez aquilo.”
  “Eu não queria fazer isso, é culpa sua.”
  Não estou falando aqui sobre coação, ou sobre ameaças. Essas são coisas que podem nos levar, de fato, a fazer aquilo que não queremos.
  Estou falando sobre as pequenas decisões do dia a dia, ou mesmo sobre decisões que tomamos que definem o rumo que a nossa vida vai tomar.
  Posso escolher me afastar, mas posso escolher perdoar. Posso escolher se vou olhar para uma situação de um ângulo ou de outro. Posso decidir que influências externas vão permanecer na minha mente. Posso ser empurrada pra um caminho, mas eu é que decido se vou permanecer nele.
  A culpa é um fardo pesado que ninguém quer carregar. Ninguém gosta de se justificar.      Ninguém quer assumir uma decisão falha. Todos querem fugir da falha, e a melhor forma de se livrar dela é por dá-la a alguém. Alguém que faz parte do assunto, quase sempre. Mas, por pior que seja o outro, a nossa vida ainda é nossa.
  Todos os dias nos deparamos com várias decisões, e sofremos várias influências, constantemente. Podemos escolher ceder aos nossos sentimentos mais intensos, às nossas dores, traumas, cenários. Podemos escolher deixar nosso coração inflamado tomar a decisão por nós.
  Mas também podemos escolher outro caminho para trilhar. Podemos buscar a cura do nosso coração. Tratá-lo, protegê-lo e preenchê-lo do que é bom. E então, deixá-lo participar de uma decisão, junto com nossa mente consciente e racional. Talvez então, quem sabe, a atitude que escolhemos tenha um resultado tão bom, que até queiramos os créditos pela decisão.
  Um trabalho em equipe tem mais chance de acerto. E deixar que outros, que também têm seus corações curados trabalhando com suas mentes conscientes e bem treinadas, sugiram caminhos que fogem do óbvio, ou que simplesmente sejam diferentes do que o que estávamos mais inclinados a escolher, pode trazer resultados ainda melhores.
Exige esforço, humildade e determinação. Mas não há nada como colher os bons frutos das boas escolhas. E levar a culpa sobre elas.


*MaRi Rezk*