O Dono da Culpa
De quem é a culpa?
Não acredito que seja minha. Ninguém acredita que tenha a culpa, geralmente.
Porque a gente sempre procura um responsável por tudo que acontece?
O mais difícil é tentar entender porque a gente tenta achar um responsável pelas decisões de alguém. O poder de decisão é uma das coisas mais pessoais que existem. Posso ter vários traumas na minha vida, mas não posso responsabilizá-los pelo que eu decidir fazer. Eles não me definem, nem decidem por mim. Posso usá-los de formas diferentes, para diferentes fins. Posso escolher abraçá-los e deixá-los tornar-se parte de cada um dos meus dias, e direcionarem meus pensamentos e ações. Assim como posso decidir deixá-los no passado, apenas como lições aprendidas. As duas opções são decisões que eu vou tomar, e não posso responsabilizar ninguém por elas.
Também não posso escolher alguém para culpar por minhas ações. Não poderia dar a alguém tanto poder sobre mim, nem se quisesse.
Não é que não possamos ser influenciados por outros. Podemos, e muito. Mas ainda que a influência seja grande, e a pressão forte o suficiente para me fazer sofrer, o poder de decisão ainda é meu.
Eu ainda sou eu, ainda falo e penso por mim.
Seria muito fácil culpar a outros pelas minhas escolhas. Culpar meus traumas pela minha forma de lidar com eles mesmos. É como dizer que outra pessoa é que merece as consequências pelas minhas ações.
Às vezes sofremos as consequências das ações de outros (muitas vezes). Mas não devemos carregar essa culpa. Existem muitas nuances sobre o assunto do poder da influência, mas nenhuma dessas nuances nos leva a ser responsáveis pelas decisões de outros.
“Olha o que você me fez fazer.”
“Eu fiz isso porque você me fez aquilo.”
“Eu não queria fazer isso, é culpa sua.”
Não estou falando aqui sobre coação, ou sobre ameaças. Essas são coisas que podem nos levar, de fato, a fazer aquilo que não queremos.
Estou falando sobre as pequenas decisões do dia a dia, ou mesmo sobre decisões que tomamos que definem o rumo que a nossa vida vai tomar.
Posso escolher me afastar, mas posso escolher perdoar. Posso escolher se vou olhar para uma situação de um ângulo ou de outro. Posso decidir que influências externas vão permanecer na minha mente. Posso ser empurrada pra um caminho, mas eu é que decido se vou permanecer nele.
A culpa é um fardo pesado que ninguém quer carregar. Ninguém gosta de se justificar. Ninguém quer assumir uma decisão falha. Todos querem fugir da falha, e a melhor forma de se livrar dela é por dá-la a alguém. Alguém que faz parte do assunto, quase sempre. Mas, por pior que seja o outro, a nossa vida ainda é nossa.
Todos os dias nos deparamos com várias decisões, e sofremos várias influências, constantemente. Podemos escolher ceder aos nossos sentimentos mais intensos, às nossas dores, traumas, cenários. Podemos escolher deixar nosso coração inflamado tomar a decisão por nós.
Mas também podemos escolher outro caminho para trilhar. Podemos buscar a cura do nosso coração. Tratá-lo, protegê-lo e preenchê-lo do que é bom. E então, deixá-lo participar de uma decisão, junto com nossa mente consciente e racional. Talvez então, quem sabe, a atitude que escolhemos tenha um resultado tão bom, que até queiramos os créditos pela decisão.
Um trabalho em equipe tem mais chance de acerto. E deixar que outros, que também têm seus corações curados trabalhando com suas mentes conscientes e bem treinadas, sugiram caminhos que fogem do óbvio, ou que simplesmente sejam diferentes do que o que estávamos mais inclinados a escolher, pode trazer resultados ainda melhores.
Exige esforço, humildade e determinação. Mas não há nada como colher os bons frutos das boas escolhas. E levar a culpa sobre elas.

Sempre cirurgicamente delicada! Obrigada por me fazer ver coisas diferentes, pelos seus olhos! 🩷
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