sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A Pessoa da Dor

                                                 A Pessoa da Dor




  Às vezes surge sem motivo. Às vezes o motivo mora no fundo do nosso coração. Em outras, o porquê é pequeno demais pra tanto impacto, mas não somos nós que decidimos a intensidade da presença dela. Em muitas vezes, a razão dela surgir é óbvia, grande, e domina todo o nosso entorno.
  A dor, quando surge, é como um outro alguém dentro da gente. Ela toma suas próprias decisões, de quando aparecer, e em qual intensidade vai agir na gente. Quando ela decide que quer se instalar no nosso coração naquele momento, não nos permite guarda-la pra quando estivermos em casa. Ela só vem, assim como deseja.
  Certas dores têm origens menores que outras, mas doem na gente como bem entendem. Quando ela vem acompanhada de um vazio, ele cresce a cada vez que ela nos visita, até que se torna um abismo. 
  Quando o nosso coração figurativo se enche tanto da dor, ele transborda para o nosso coração literal. Conseguimos senti-la no nosso corpo. Seus efeitos a caracterizam quase como uma doença, mas invisível. Uma doença que está em tudo, mas em lugar nenhum. Não pode ser retirada com uma cirurgia, não pode ser vista num raio-x. Mas é capaz de nos paralisar.
A cura vem numa velocidade 100 vezes menor. É de difícil acesso, e geralmente precisa de um empurrãozinho externo pra funcionar. A cura depende de uma energia que a própria dor nos rouba. É um ciclo difícil de quebrar. 
   O tempo não resolve tudo. Ele ajuda, mas não resolve. Tampouco diminui a dor. O tempo apenas nos faz chegar a mais conclusões, que nos ajudam a entender alguns dos porquês. Talvez alguma conformidade. Isso porque o quê a dor mais faz é nos fazer pensar no assunto. E de tanto martelar na nossa cabeça, gerar ideias, teorias e visões de novos ângulos, conseguimos entender certas nuances. Mas a dor continua a doer. 
  A carga é tão pesada, que a melhor maneira de amenizar os danos é dividi-la com alguém. Que é exatamente o que a dor não quer que você faça. Mas é o que nos ajuda a conseguir levantar, ainda que ela continue nos golpeando - pedir e aceitar ajuda.
  Algo que geralmente costuma ajudar é redirecionar nossa concentração. Estabelecer prioridades, identificar pontos positivos, e direcionar nossos pensamentos e esforços para isso. Não estou dizendo que é fácil (e nem que consigo fazer isso sempre). É um processo. Como todo processo, leva tempo e energia.
   Alguns remédios naturais também ajudam na cura. Uma dose diária de luz do sol, brisa suave no rosto e movimento, pra dar um motivo de verdade pro coração acelerar. É preciso se permitir sorrir, apreciar e amar, ainda que sofrendo, lá no fundinho, com as marteladas da dor.
  O importante é que muitas vezes a dor vem acompanhada de um novo saber. Um novo ponto de vista. Não gosto de chamar de lição, porque ninguém gosta de aprender assim. Mas um novo olhar, uma nova percepção. E isso talvez nos ajude a evitar novas dores. E no final, a vida, nessa realidade, é isso - um monte de dores que buscamos evitar.


            *MaRi Rezk*



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