quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Sobre ser adulto...

                                                    Sobre ser adulto...




  Fui uma grande admiradora dos adultos, enquanto ainda não podia ser uma. Sempre foi o meu objetivo me tornar, o quanto antes, uma dessas pessoas grandes que pareciam ser tão fortes, tão sábias, tão cheias de certezas e de grandes feitos em seus históricos. Me admirava o grau de confiança em que davam as respostas das perguntas que, para mim, pareciam ser tão complexas. Me impressionava a objetividade (não que eu soubesse na época o que essa palavra queria dizer, mas seu significado passeava pelas minhas ideias de vez em quando...rs) com que certas decisões eram tomadas, com uma aparente certeza de sucesso no final das contas. Como, além de altos e fortes, esses tais adultos podiam saber de tudo?
  Mal sabia eu que os adultos são apenas meros rascunhos das maravilhosas crianças que haviam sido. Não eram, nem de perto, as incríveis criaturas que eu tanto pintava na minha cabeça. Mas isso é algo que descobrimos depois que chegamos lá. E, quando finalmente alcançamos a antes tão esperada idade de amadurecimento (apesar de que existem aqueles que nunca chegam lá), entendemos que a ilusão das crianças nesse respeito é muito importante para seu senso de confiança, e mesmo pra sua própria segurança. As crianças precisam acreditar que seus adultos responsáveis sabem de tudo, e que conhecem as consequências de cada ação perigosa que os mini seres humanos tanto amam fazer (pra testar o coração de seus respectivos pais, avós, tios ou "Maris"). 
  Mas a cruel verdade, que só nos é revelada quando já iniciamos na vida adulta é: bom mesmo era ser criança. E, adivinha só, você nunca mais poderá ser uma. E não estou falando sobre ter um espírito jovem, ou ser uma eterna criança no sentido de sempre se divertir com tudo e levar a vida leve. Você pode ser tão bobo e brincalhão quanto quiser. Mas, amigo, criança você não vai ser nunca mais. O que eu quero dizer é: você nunca vai recuperar a inocência que tinha quando não sabia de muita coisa da vida. Não dá pra "des-saber" das coisas. E, portanto, não dá pra voltar a ser criança. E essa é só a primeira de muitas surpresas tristes que temos quando finalmente chegamos lá.
  Talvez não haja idade mais emocionalmente perturbada do que a idade de "jovem adulto". É preciso estar preparado para conseguir manter-se são diante de tantas mudanças. Jovem adulto é aquele adulto que ainda só sabe ser adolescente. Nessa fase da vida, você recebe uma mala grande cheia de responsabilidades, com um bilhete preso no zíper que diz: "Se vira". Basicamente é isso. Você sabe muito pouco da vida, mas tem que aprender a lidar com ela. E lhe é cobrado que defina bem cada aspecto importante da sua vida desde já. E talvez a parte mais difícil é que, como uma criança que é comparada com o amiguinho que "come todo o papá", a pressão de ser como o coleguinha da mesma idade que faz as coisas melhor do que vc ainda é muito constante, em cada área importante da vida (não na parte de comer tudo o que está no prato, isso você vai conseguir bem até demais. Afinal, ansiedade é uma realidade agora). Se seu amigo consegue trabalhar, estudar, formar uma família e fazer malabarismo com 7 bolinhas, com uma mão só, você também consegue! Mas não se desespere, querido jovem adulto. As coisas não vão ficar mais fáceis (o que seria o motivo perfeito para se desesperar), mas com o tempo você vai conseguir lidar melhor com a pressão e a ansiedade (mesmo que seja com ajuda profissional), e, com o passar dos anos da vida de adulto (pra mim, cada ano como adulto equivale a um mês de vida de uma criança, porque a infância parece ter durado uma vida inteira. Triste realidade) você acaba se acostumando com a correria.
  E então, você descobre, em si mesmo, a verdade sobre ser adulto.
  Quando a gente cresce, descobre que adulto é quem mais precisa aprender e muitas vezes isso acontece na prática, na hora do aperto mesmo, sabe?! As incertezas estarão sempre lá, a vida toda. E finalmente entendemos que adulto não sabe de tudo. Que adulto chora, até mais do que criança, mas, por ter sido ensinado desde pequeno que adulto não chora, tenta disfarçar ao máximo. Adulto disfarça até risada (principalmente se for de algo bem besta. Afinal, coisas bestas não perdem a graça nunca), medo de escuro, medo de errar. E como erram os adultos! E julgam, criticam, complicam. Pegamos algo que costumava ser bem simples de entender e distinguir, e adicionamos milhares de variáveis (tá vendo como eu compliquei essa frase?). Porque adulto tem o péssimo hábito de achar que só porque é adulto, as coisas não podem ser tão simples.
  E você não vai acreditar no que eu vou te contar. Tá preparado? Lá vai: não precisa ser tão difícil. Que tal descomplicar? Que tal pegar esse monte de peso que a vida tem, transformar em pluma e soprar ao vento? É claro que é mais fácil falar do que fazer, mas não custa tentar. Não custa focar na beleza e delicadeza das coisas, nas poucas mas sinceras palavras, nos simples mas belos gestos.
  Porque a verdade é que adulto tenta ver poesia em tudo. Criança simplesmente o é. E talvez seja isso que nos esteja faltando: ser poesia.



*MaRi Rezk*


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

De: Mari de 23 | Para: Mari de 13


                                     De: Mari de 23 | Para: Mari de 13






   Fui convidada pela minha amiga Carú a realizar a divertida tarefa de escrever uma carta para a “eu” de 10 anos atrás. Me apaixonei pela ideia porque, além de ser uma proposta criativa, também é uma boa oportunidade de dar significativos conselhos para a pessoa que mais precisou deles  que eu já conheci – a Mari de 13 anos. E quem sabe um dia a Mari de 33 não tenha muito que me ensinar?


   Querida fat Mari de 13 anos,

  Parabéns, você sobreviveu à adolescência (apesar de alguns acharem que você ainda está nela)! Devo admitir que não foi fácil, principalmente depois de tantas transformações, reviravoltas e surpresas da vida. Mas hoje posso dizer com orgulho que, como adulta, você é, imagine só, feliz! E entenda que os seus erros, acertos, vergonhas e decepções serão de muita ajuda para que você aprenda lições importantes. Tente perceber cada uma dessas lições contidas em cada lágrima, e em cada sorriso. Elas serão o seu guia para que você aproveite da melhor forma possível essa fase tão desastrosamente maravilhosa que é a adolescência. Ainda assim, gostaria de dar uns conselhos bem valiosos que podem te ajudar um pouquinho nessa terrível bela transição. Vai por mim.
  Tenta dar uma maneirada nessas respostinhas que você ama dar. Você se acha toda espertona agora, e vai se sentir assim por alguns anos, mas, acredite, você vai se envergonhar de 90% desses momentos quando for adulta. E um dia você vai perceber que foi desnecessariamente agressiva em alguns diálogos com pessoas inocentes (“Seje menas”). E você está longe de ser a pessoa mais inteligente do mundo. Tente se lembrar disso.
  Tenta se preocupar menos com os problemas da vida, e se divirta mais! Só se tem 13 anos uma vez na vida (e 14 também, e 15 também...), então aproveite para curtir bem essa época.
  Já vai tentando superar o seu medo de atravessar a rua, porque isso talvez te ajude a superar o seu futuro medo de dirigir.
  Desde já peça pra sua mãe te ensinar a cozinhar. Você vai demorar muito pra começar a se aventurar nesse ramo, então facilite sua vida adulta desde agora.
  Você só vai conseguir ser magra lá pelos 15 anos (mas ninguém vai te dizer isso, então tente perceber por conta própria para não sofrer mais com o bullying familiar), e será uma fase passageira. E nem todo ano você vai ter uma virose para equilibrar seu peso, então... faça algo a respeito.
  Entre os 14 e 15 anos você achar que fica bem usando duas Maria-chiquinhas no cabelo. Evite isso.
  Tenta ter um controle com a sua coleção de esmaltes. Você não precisa de tantos, e muitos deles vão estragar sem terem sido usados até o fim. Esse vício vai aumentar com o tempo, e você vai passar um bom tempo sem entrar em farmácias ou perfumarias para se manter “sóbria”
 (Mas estamos bem agora).
  Não assista tantos filmes de romance nos próximos anos, eles não vão te fazer muito bem. Substitua por filmes de heróis, você vai gostar muito deles no futuro. E são bem mais saudáveis.
  Você nunca vai colocar os pés numa academia, vamos ser sinceras. Mas tenta começar a fazer algum exercício agora (por favor, me ajuda). Faz de tudo pra perder essa barriga o quanto antes! Porque vai chegar uma época da sua vida em que ela simplesmente vai se recusar a ir embora.
  Quando você começar a ganhar seu próprio dinheirinho, evite ao máximo entrar em docerias, chocolaterias e afins. Sabemos que você não é forte o bastante pra resistir, então passe o mais longe possível da tentação. E, se você guardar todo o dinheiro que gastaria em doces, talvez seja uma jovem milionária aos 23. Quem sabe...
  Com relação a meninos, continue fazendo o que você está fazendo. Um dia vai valer muito a pena, e você vai ser muito feliz.
  Evite ao máximo usar as palavras “sempre” e “nunca”. A vida vai sempre te surpreender, para o bem e para o mal.
  Esqueça tudo o que você acha que sabe sobre beleza. Você não sabe de nada.
  Tenta fazer com que a sua mãe coloque aparelho em você logo. A época de ser feia é agora. E corre pra uma dermatologista. Corre!!
  Aproveite a sua família ao máximo. Um dia, alguns membros dela te farão muita falta. Amigos vêm e vão, e poucos ficarão.
  Um dia você vai descobrir que ama escrever (você já ama, na verdade. Só não sabe ainda). Investe tudo nisso!
  Evite ao máximo todo e qualquer conflito (surgirão alguns pelo caminho).Tenta se dar bem com todo mundo. Esquece tudo o que você acha que sabe sobre pessoas. Julgue menos. Sorria mais (pra todo mundo).
  Já vai pensando o quer da vida agora. Seja mais ativa, se arrisque mais!
  Num belo dia você vai descobrir que a melhor coisa da vida é ser eclética. Esqueça a ideia de que só o que você gosta é legal, e vai perceber que é muito mais interessante estar disposto a experimentar o novo.
  Não tenta enrolar o cabelo até que você faça luzes. Só assim vai funcionar.
  E seja tão feliz quanto conseguir. Foca em tudo de bom que acontecer com você, e a vida vai parecer bem mais suave. Viva cada fase no seu tempo, sem stress. Não se esqueça de estar sempre disposta a aprender (como sou até hoje). Não permita que a sua essência se perca no meio do caminho, dá muito trabalho procurar depois. Você vai vencer muitos medos, e muitas boas escolhas estão nesse caminho em que você vai percorrer. Divirta-se tanto quanto puder! Daqui onde estou posso olhar para trás, pra você, e, entre uma decepção e outra, posso dizer com orgulho: nós conseguimos! Só não conseguimos ser magras por muito tempo. Mas isso é só um detalhe.
 
 
 
*MaRi Rezk*



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Aquele amigo

                                                             Aquele amigo




Todo mundo tem “aquele” amigo. Que entende cada uma das nossas bobagens, que dá corda às nossas paranóias, que ri da gente na nossa cara e chora no nosso ombro. Aquele amigo que é mais nosso do que dos outros, que conversa pelo olhar (o que é muito útil para se comunicar de longe...rs), e é a primeira pessoa que surge na nossa mente quando algo importante acontece (e precisa ser compartilhado). Que sabe cada uma das nossas respostas, sem a gente precisar dizer. Com quem nunca é chato estar. Que dá sentido a cada ideia super maluca que a gente tenha (mesmo que com argumentos inventados, só pra gente se sentir menos maluco). E que, quando necessário, diz aquilo que a gente precisa escutar, não só o que a gente quer. Aquele amigo é em quem depositamos toda a nossa confiança, e que acreditamos que será tão amigo a vida inteira quanto é agora.
  Mas nem sempre é assim. A vida às vezes dá voltas. E às vezes dá um mortal duplo carpado, e a gente aterrissa de cara no chão, sem saber bem onde foi parar. E percebemos que estávamos encarando como “aquele” o amigo errado. Tanto tempo e energia dedicados à quem não tinha a intenção de retribuir, afinal. O vento levara cada “pra sempre” falado. Aquilo que pensávamos ser permanente, aos poucos se dissolve. Acaba. Não acontece de uma vez, como possa parecer. É que só queremos admitir quando não há mais meio de negar. Fechávamos os olhos para cada sinal, ignorávamos cada evidência de que aquilo não estava mais funcionando como antes, de que aquele coração estava pouco a pouco se afastando do nosso. Até que somos obrigados a enxergar que aquilo não é (talvez não mais, talvez nunca tenha sido) tão profundo como fora antes.
  Geralmente o que parece mais inquebrável é o que tem mais chances de nos cortar com os cacos. Aquilo em que mais depositamos confiança é o que mais tem poder de nos ferir quando falha. E, pode ser até que essa falha sempre estivesse lá, e somente os nossos olhos eram incapazes de ver.
   É doloroso vê-lo se perder da gente. Mas é ainda mais devastador vê-lo se perder dele mesmo, e do bom caminho que percorríamos juntos. Talvez nos sintamos culpados por não ter conseguido ajudá-lo o suficiente, apesar de todo o esforço. Mas é bom lembrar que o erro de uma pessoa nunca é por culpa de outra. Muito provavelmente nada do que tivéssemos feito de diferente poderia ter tido qualquer efeito sobre sua decisão. Isso porque, por mais maravilhoso que seria se fosse possível, não podemos tomar decisões por ninguém além de nós mesmos. Nos cabe apenas aconselhar tanto quanto possível, e esperar pelo melhor.
  Talvez ele esteja apenas perdido no meio de uma tempestade. E, por mais que a nossa vontade seja sempre estender um braço firme em que ele possa se agarrar, e puxá-lo para onde sabemos ser o lugar mais seguro, temos que aceitar caso ele esteja lá por vontade própria, ou por uma falsa sensação de extrema liberdade. Ficarmos lá, estendendo o braço com todas as nossas forças para alguém que não está à procura de um abrigo, só vai nos desgastar, tirar nossa paz, ferir nossos sentimentos.
  Não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Não se pode cobrar amizade de quem não a tem para dar. As pessoas só podem dar aquilo que tem, por isso não se pode cobrar paz de quem vive em turbulência. Ou amor de quem só possui indiferença. Não é justo carregar a falha do outro nos ombros, e nem cobrar de nós mesmos reparações. Não cabe a nós. O que podemos fazer por ele é orar, esperar pelo melhor, e estender, não só um, mas os dois braços, para dar um abraço sufocante caso ele reconheça seu erro e dê meia volta. E o que podemos fazer por nós é manter nossa paz, e aceitar que não podemos interferir tanto quanto gostaríamos nas decisões de ninguém, que a ajuda que podemos dar é limitada, e procurarmos não perder a alegria. E, caso ela acabe se perdendo por um tempo, que possamos descobrir que ela pode ser reencontrada em muitos outros lugares, situações e pessoas.


*MaRi Rezk*



  

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sobre escrever...

                                                       Sobre escrever...




  É traduzir o que a sua cabeça pensa do que o seu coração sente. É tirar de dentro do nosso coração tudo o que não cabe mais nele. É tentar dar nome a uma lágrima, a um sorriso, a um friozinho na barriga. É mostrar que nenhuma dor é exclusiva, nenhuma mania é única, e que certas palavras podem mudar o dia de alguém e fazer com que muitas outras palavras nasçam nas cabecinhas de quem leu as suas. É ensinar com a sua história, boa ou ruim.
  Não é bem um vício. Está mais para necessidade, mas de um tipo diferente da de comer e dormir, por exemplo. É uma necessidade de se expressar de forma a ser plenamente compreendido. E principalmente de “desengasgar”. Tirar aquele “nózinho” na garganta que tanto incomoda. E às vezes o nózinho  surge quando a gente menos espera. Basta alguém perguntar “Você já pensou sobre...?”, e imediatamente você fabrica um texto na sua cabeça sobre o assunto, já busca sinônimos e regras de concordância na memória, corre os olhos ao redor procurando uma caneta e um pedacinho de papel qualquer, só para não perder a ideia que acabou de brotar. E aí, depois desse súbito momento de adrenalina, você sente a necessidade de dividir com alguém aquela ideia escrita, nem que seja para uma pessoa só (todo aspirante a escritor tem “a pessoa” [eu tenho várias]).
  A maioria de nós somos amadores, simples curiosos. Geralmente o amor à escrita é resultado de anos de amor à leitura, mas também surge da necessidade de quem não é muito bom com palavras faladas (como eu). E aí, de redação em redação a gente se encontra, e aquelas ideias vagas que não sabiam se fazer entender começam a ganhar significado.
  Sempre que algo à nossa volta acontece, e nos balança, nada melhor para entender como realmente estamos nos sentindo a respeito disso quanto colocar no  papel. Isso nos ajuda a enxergar mais claramente a situação, e mais, nos enxergar por dentro.
  E quando não conseguimos passar aquela dorzinha na boca do estômago pro papel, às vezes por falta de tempo, ela cresce. E cresce tanto que nos dá um leve desesperozinho, principalmente de perder aquelas ideias. E nada funciona enquanto as palavras não saem da gente. Nenhuma conversa flui como deveria, o olhar fica perdido. E, quando finalmente elas saem, dão um trabalhão. Escrevemos, rabiscamos, trocamos de lugar, reescrevemos. E nunca está perfeito. Mas quando finalmente conseguimos colocar nossos pensamentos da forma mais aceitável possível, depois de pedirmos a opinião da “pessoa” (da vez), chega o maior motivo de animação daquele dia – a hora de compartilhar. É uma ansiedade sem fim, uma felicidade tão boba, mas tão sincera. E uma eterna insegurança paira sobre os silenciosos primeiros minutos. Mas quando as primeiras respostas chegam, não há tragédia que tire o sorriso do rosto.
  Aqueles sentimentos que pensávamos ser só nossos começam a ganhar nome e forma, e descobrimos que outros compartilham das mesmas sensações. E melhor do que nós mesmos conseguirmos compreender esses sentimentos, às vezes tão confusos, é saber que fomos capazes de traduzi-los a outros, e que essas pessoas se encontraram nas nossas palavras. Esse sentimento, de tão grande e tão precioso, ainda não consegui traduzir.


*MaRi Rezk*


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Virar gente

                                                              Virar gente




  Eu amo chocolate, amo animais e tenho a mesma loucura (aceitável) que a grande maioria das pessoas tem de perder a noção de idade quando está perto de plástico-bolha. Perfeitamente normal as pessoas gostarem dessas coisas. E é até compreensível quando alguém fala: “Chocolate é melhor que gente”, ou “Prefiro plástico-bolha a pessoas”, ou “Meu cachorro é melhor que muita gente”. Afinal, todos temos aqueles dias em que preferimos a companhia de uma barra de chocolate do que de pessoas te cobrando coisas, te pedindo coisas, grosseiras, ou simplesmente pessoas que são, por natureza, irritantes. Não temos a obrigação de estar o tempo todo felizes e dispostos a interagir com outros seres humanos. E, na minha opinião, é até saudável reservar um tempinho, ainda que sejam apenas alguns minutinhos, de cada dia só para joguinhos bobos, doces ou os bichinhos que a gente gosta tanto. Ou até para rolar em cima de pedaço enorme de plástico-bolha  (já vi acontecer).
  Mas existem algumas pessoas que acabaram se decepcionando demais com a humanidade, e que resolveram que vão dedicar todo o seu afeto a seu pet, ou que almeja a solidão mais do que qualquer outra coisa. Porém, vale lembrar, nem mesmo a humanidade é “generalizável” (Não sei se essa palavra existe, mas se não existia, agora existe. Aceite.). É claro que algumas pessoas vão nos decepcionar e até mesmo tirar a nossa alegria por um tempo. E podemos até mesmo começar a acreditar que a maioria das pessoas é ruim, e que praticamente todas elas merecem o nosso desprezo. E sim, tem muita gente ruim lá fora. Eu mesma me choco com algumas coisas que vejo, de como seres humanos podem ser cruéis com quem não tem nenhuma defesa, gente ou bicho, seja com atos tão tão terríveis, ou palavras tão tão duras, ou com maldades sem propósito nenhum.
  Mas aí, Hey!, você se lembra que não existem só pessoas ruins no mundo. Se você olhar cuidadosamente, vai encontrar pessoas que nos mostram o que é ser gente de verdade. Afinal, quem nunca ouviu que precisava “virar gente”, né?! E talvez percebamos que virar gente seja mais do que apenas crescer, mas ter um grande coração, que ame antes de julgar, e que comporte mais pessoas do que mágoas, que enxergue mais qualidades do que defeitos. Virar gente envolve entender que nossas ideias nem sempre são as melhores, nossas escolhas nem sempre são as mais acertadas, e que, por mais que não entendamos naquele momento, nós estaremos errados em algum ponto, e que não há vergonha nenhuma em reconhecer. Porque gente também erra. E reconhece. E se desculpa.
  Se a gente se concentrar nas pessoas boas ao invés de pensar tanto em pessoas ruins, vamos encontrar gente que é tão tão gente.... Pessoas que ajudam outras pessoas, mais  fracas, tristes, e até perdidas, com um prato de comida, com uma palavra de conforto, com um abraço apertado. Gente que dá de si, e se coloca de lado para o maior conforto do outro. Que acarinha com o olhar,com o tom da voz. Gente que sabe a hora certa de dizer a coisa certa, que lê no nosso rosto um pedido de ajuda. Gente que acolhe gente que precisa, seja em casa, nos braços, no coração. Que perdoa, sem que a pessoa peça ou mereça, por entender que todos são imperfeitos, e que a próxima a errar talvez seja ela mesma. Que dedica toda a sua vida a ajudar o próximo, seja materialmente, seja espiritualmente, levando esperança, amor. Gente que entende que a vida do outro é tão importante quanto a sua, e que ele não precisa de tudo o que quer, e, portanto, pode dedicar-se a levar um pouquinho de felicidade a quem não tem nenhuma.
Olhando ainda mais cuidadosamente, talvez encontremos gente que seja gente antes de ser qualquer outra coisa. Que sejam gente, de forma tão ampla e completa, que tornam o significado da palavra “gente” ainda mais complexo. Pessoas que vivem para  o bem, para dar ainda que um pouco de consolo para quem sequer vai agradecer depois, mas que,por serem tão gente, se contentam com um sorriso de canto, um brilho no olho. São pessoas que dão aquilo que têm, ainda que precisem, para quem precisa mais.
  Toda essa “gente”, tão cheia de bondade e amor, são as pessoas que realmente precisamos observar, e são nelas que precisamos nos inspirar. A chave está na bondade, ou sincera vontade de ser bom pro outro. A capacidade de colocar o amor ao próximo acima de qualquer outro desejo que apareça no nosso coração. Um amor limpo, livre de qualquer influência que nossos olhos e ouvidos possam ter sobre ele. Um amor que não diminua ao ser testado, e que não desapareça por não ser correspondido. Que entenda que, mesmo ao ser retribuído com ódio ou ingratidão, fez o que devia, e sinta-se satisfeito.
  Ser gente requer sentimentos tão profundos e intensos que soa um tanto quanto impossível. Mas, pode-se ser gente, a meu ver, num gesto, numa palavra de carinho, em uma ou outra vez que sentimos um genuíno impulso de estender a mão a alguém, livre de qualquer intenção secundária.
  Ser gente o tempo todo, para nós seres humanos imperfeitos e falhos, é impossível. Mas agir como gente de vez em quando, quando surge a oportunidade, ou quando fazemos com que uma oportunidade apareça, já nos ajuda a ser apontados como “Aquela pessoa agiu como gente”. E garanto que não há chocolate, filhotinho fofo, ou plástico-bolha que nos traga uma sensação melhor do que essa.


*MaRi Rezk*


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Palavras

                                                              Palavras




  Estava eu aqui pensando em todas aquelas coisas bobas que eu já falei. Sabe quando você se deixa levar pela emoção do momento, e aí de repente acaba achando super normal dizer que “ama” alguém, ou que tal pessoa vai estar “sempre” na sua vida, ou que “nunca” vai abandonar fulano? Pois é, nem tudo foi real. Pensando bem, parece que quando a gente resolve dizer coisas desse tipo, aquela relação está  automaticamente fadada ao fracasso.
  É que, hoje em dia, estamos tão acostumados aos exageros de linguagem que acabamos nos esquecendo do tamanho das palavras, e as usamos imoderadamente, mesmo que sem querer.
   Aquele “sempre” talvez não pretenda ser tão duradouro. Pode ser que dure um mês, um ano, alguns anos, e, se tiver muita, mas muita sorte MESMO, dure a vida toda. Mas nos acostumamos a usá-lo sem pensar em tempo. O mesmo se aplica ao “nunca”, que tomou o lugar do “não”, e é jogado aos montes, geralmente no calor de um momento bom ou ruim. “Nunca mais”, “nunca na vida”, “nunca vou esquecer”. “Nunca vou te deixar”. Se esse “nunca” cumprisse seu propósito com base em seu significado, seríamos poupados de muitas decepções. Igualmente o amor e o ódio, que são poderosos demais para serem dedicados à alguém sem termos no mínimo certo grau de certeza.
  É claro que algumas circunstâncias mudam, e o que sentíamos pode se transformar em algo diferente. Pode ser que aquela forte ligação que tínhamos por alguém sofra uma interferência do tempo, distância, ou de um acontecimento inesperado. Raros são os relacionamentos que permanecem sempre com a mesma intensidade. E é até compreensível que eles mudem. Faz parte da vida o ‘transformar-se’.
  Mas não quer dizer que vamos distribuir por aí palavras de grandes significados, e depois nos dar a desculpa de que podemos mudar de opinião sempre que bem entendermos.
  E também é importante lembrar-se que, ao lançar à alguém uma palavra de forte significado, você está mexendo com os sentimentos daquela pessoa. Você a expõe à algo que no fundo nem significa tanto para você, e pode acabar por deixar cicatrizes em um dos lados.   Quanto mais você usa uma palavra especial, menos valiosa ela vai se tornando. E quanto mais desprezarmos o seu valor, menos credibilidade teremos para usá-la quando realmente pretendermos.
  Certas palavras precisam ser usadas com responsabilidade para não iludir, não partir corações, e não destruir a grandiosidade das mesmas.
  Você não vai ser sempre amigo das mesmas pessoas da mesma forma que é hoje. E isso que você sente por aquela pessoa que você conheceu semana passada, muito provavelmente não é amor. Pode ser que você sinta uma grande amizade pela pessoa, ou uma forte atração, ou um imenso carinho. Mas dizer à uma pessoa que sente por ela o que há de mais poderoso no universo, de forma que a faça acreditar mesmo nisso, pode ser motivo de grande decepção para ela algum tempo depois.
  Não associe eternidade à sentimentos rasos, nem aceite “sempres” e “nuncas” de pessoas rasas. Pode ser que alguém queira prender você à ela, fazendo com que você acredite que aquela forte palavra tem também um forte significado. Não se deixe enganar por palavras bonitas e frases bem feitas. Sentimentos mostram-se verdadeiros quando provados por ações, tente nunca se esquecer disso.
  É claro que a entonação que você usa conta muito. Uma coisa é você brincar e exagerar propositalmente. Outra coisa é você iludir, ou até mesmo iludir-se, ao entregar suas palavras mais profundas ao calor de um momento. Ao tentar amarrar uma pessoa a você usando sentimentos vazios enfeitados com fortes palavras, tudo o que você receberá em troca será um afeto forçado, oco, que não significa nada.
  Tenha paciência. Deixe seu sentimento crescer. Deixe o tempo agir, cultive, regue, deixe-o criar raízes firmes no seu coração. Não force algo novo a ser tão grande quanto algo eterno. Entenda, e saiba traduzir as batidas do seu coração. Não engane a si mesmo. Não minta para si mesmo. Saiba usar as palavras da forma correta. Você não vive dentro de um filme de romance (Eu sei, infelizmente...rs). Nossa vida não funciona como na ficção. Não deixe que sua palavra perca todo o valor, e, da mesma forma, não deixe que outros furtem seu coração com palavras sem valor. E, o mais importante: Pense, e pense bastante, antes de tudo.



*MaRi Rezk*



terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre superar...

                                                      Sobre superar....




  Acabou. Foi bom enquanto durou. Foi ótimo na verdade. A gente se divertiu bastante, criou muitas memórias legais, mas não tem volta, cada um pro seu canto. Seria ótimo... se o meu maior defeito não fosse a incapacidade de superar todo e qualquer fim. Se você compartilha comigo desse problema (que não é nada fácil), vai se identificar com tudo que vai ver abaixo. Só não espere por conclusões. Ainda estou pra formar algumas...
  Não supero fim de filme, de série, de relacionamento (de qualquer tipo), de barra de chocolate. Nunca superei o final de O Espetacular Homem Aranha 2 (sem spoilers pra quem não viu [mas quem viu vai me entender]), A propósito, não superei nenhuma das mortes em Grey’s Anatomy (médicos ou pacientes). Não superei que a Rose não deu um espacinho pro Jack na madeira em que ela estava boiando. Não superei a separação do casal Chris Martin  e Gwyneth Paltrow (Green Eyes parou de fazer sentido :’( ), nem a morte do Chaves. Não superei o fim do MSN.  E com certeza não superei o fato do meu estoque de doces escondidos ter acabado.
  Mas existem aquelas perdas que só a gente sente, de algo que era só nosso. Essas são as mais difíceis de superar. É impossível encontrar quem entenda perfeitamente o que aquela perda significou pra nós. Porque, ainda que não tenha sido só você que viveu aquela situação, você ainda terá sido o único que viveu aquilo com o seu coração. E Deus sabe como um coração nunca sente igual ao outro. Portanto, cada pessoa tem aquele único sentimento, naquele único momento, e que pertence só a ela, e, por isso, tão difícil de deixar pra trás.
  Ainda assim, cada perda será lamentada, sofrida e questionada. Ainda que saibamos que é passageiro, ou que foi para o melhor, ou que não foi grande coisa. Quando aquele sentimento, relacionamento ou acontecimento chega ao fim, ainda que para o nosso próprio benefício, sentimos como se parte de nós fosse arrancada e levada para longe, e como se o nosso direito de ter aquele nosso pedaço estivesse sendo violado.
  Sou uma colecionadora de memórias. E volta e meia trago algumas de volta à vida, ainda que só por fechar os olhos e lembrar. Faz parte de não se conformar com o fato de aquilo que já tivemos não existir mais. E mesmo quando, finalmente, aquele incômodo constante é contido e consigo começar algo novo, ele nunca é completo. Como se cada nova memória estivesse acorrentada à uma antiga. E aquilo que já perdi será perdido sempre que eu ganhar algo novo.
  Como deixar uma história que teve momentos tão felizes simplesmente se dissolver no tempo, e dar lugar à uma nova? Infelizmente não ensinam isso na escola. É o tipo de coisa que a gente tem que viver na prática, e torcer pra ter nascido bom nisso. E para nós, que nascemos péssimos nisso, basta tentar, tentar e tentar, e torcer pra que o tempo torne isso uma tarefa mais fácil.



*MaRi Rezk*